quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Na antecâmara de 1001 portas: Parte I

A Câmara

Tenho 32 anos e dou por mim assomado a um palácio, situado no meio de uma floresta tão espessa que só a sua vista eclipsa toda e qualquer especulação de que haja na realidade algo além do denso arvoredo. Quando me apronto a entrar sou instantaneamente assaltado pelo odor agradável e inebriante que se faz sentir no ar e reparo na luxuosa e delicada decoração de cetim, assim como, nos traços justos e inteligentes de toda a arquitectura de mármore branco. Todo o ambiente contrasta com o uniforme negro do pajem que prontamente se oferece para me guiar até onde sou aguardado. Chegados a uma porta de carvalho adornada por um puxador dourado, informa-me que posso continuar sozinho.
No instante que a entrada se fecha nas minhas costas confronto-me com a austeridade da antecâmara e das 1001 saídas que se alinham na sua estrutura octogonal: o fino recorte do tecido que até aqui cobria sofás, mesas e cortinados, não tinha aqui lugar; nem tão pouco a imponência dos grandes salões por onde passei… tudo parecia claustrofóbico e mesquinho perante as 1001 possibilidades que rodeavam a sala. Perdido e abandonado pelo pobre serviçal que me acompanhava, olho em todas as direcções inseguro do meu destino e eis que saem ao encontro da mente todas as escolhas que antes fiz, desde do primeiro teste na primária ao último copo de água que tomei. Sinto-me incapaz de dar um passo de tão aterrado pela desconfiança, quando noto que olho fixamente para uma porta situada caprichosamente no meio da parede norte, sem ceder um único milímetro às suas congéneres na direcção nordeste ou noroeste. A porta curvava-me com a sua rectidão, mas, quanto mais me perguntava se seria esse o caminho para abandonar tão pérfido quarto, mais as dúvidas me desfaziam…



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