sábado, 28 de junho de 2008

Dias De Um Futuro Passado

Dias há em que urge abordar cada situação como se estivesse a falar para uma plateia ansiosa pela próxima anedota: “É assim malta” (…) “episódio da vida real disfarçado de tragédia grega” (…) “sarcasmo que contrasta com a auto-indulgência”, ficando o final encarregue do fantástico “orgulho dependurado no limiar da ignomínia”. De repente sou socialmente aceite, as pessoas riem e eu acompanho-as dizendo cá para mim que como não tenho vergonha da ineptidão, serei uma espécie de super-homem, acima de qualquer juízo.

É suportável viver como um bicho estranho, não vejo reacção, peço antes respeito. Eis que surge o cruel cogitar do dedo indicador, directamente apontado à persona. Não há respeito, antes indiferença e o delicado tratamento das luvas de veludo que veda todo e qualquer calor humano.


Sou culpado de fugir aos lugares comuns até mascarar os meus de uma humanidade que nunca quis ter. Sentencio-me à miséria de uma guerra comigo mesmo, que levo a cabo desde que ganhei consciência. Como em todas as guerras há decisões a tomar, decisões que surgem sem aviso e com total desrespeito pelo que estava planeado, é aí que custa adaptar e moldar os nossos objectivos ao real.


Ocorreram-me centenas de ideias e frases para adornar este texto, quis escrever sobre a felicidade, sobre a realidade… queria uma visão autêntica de tudo isso. Perdi-me em memórias de dias perfeitamente iguais a este, com aquele traço ideal que é conferido às evocações do passado, tão perfeitas e etéreas na sua história já contada.


Estou a escrever sobre assuntos que quero viver, que outros os vivam. Estou a rir-me sozinho de uma anedota que ninguém percebeu, indiferente a qualquer juízo.



sábado, 31 de maio de 2008

Natureza Cristalina

Forte é o vento que me canta ao ouvido e me navega pela teia da informação. Prende-me a atenção um texto escrito por mim em Setembro de 2007, qual narcisista inveterado, sinto o orgulho secreto de ver aquele pedaço de escrita ao lado de outros mais recentes, quase como se pudesse ter sido escrito ontem sem que ninguém o notasse. Mas, eu notava… porque era uma pessoa diferente, tinha objectivos definidos e os obstáculos resvalavam na couraça que era a minha segunda pele.

É curioso que como as maiores mudanças podem ocorrer numa fracção de tempo ínfima, caindo por terra toda a edificação que ficou para trás. As minhas defesas se foram perdendo no silêncio que gritava a tua personalidade e os teus olhos fizeram minha a tua mágoa, que é a de quem espreita pelo parapeito da alma sem nunca passar da porta. Uma ave rara de plumas de cristal é admirada por muitos que julgam ver-lhe a transparência, ainda que atrás a realidade seja distorcida. Néscio fui eu em pensar que te podia fazer cantar ao meu toque e agora que partiste mais que uma pena não compreendo porque foges. Imagino apenas o receio de uma ave de vidro ao se desfazer pela força do seu canto…


Recuando ainda mais para o passado recordo a ambição de me ver livre de laços emocionais. São o tipo de pensamentos mesquinhos que tão depressa nos deixam voar bem alto como logo depois nos queimam as asas. Vários anos mais tarde observo que escapei a essa visão, porque por muito que tenha tentado não consigo ver-te na indiferença. Talvez seja essa a nossa natureza, pelo facto de voltarmos à vida cada vez que nos deixamos consumir pela nossa chama interior.


domingo, 16 de dezembro de 2007

Boa Noite A Todos

Seguindo o conselho do meu (e único) leitor mais fiel (se calhar não é o único porque o Pedro também cá vem), decidi abrir algumas excepções no conteúdo do "Ritos Nocturnos", arguindo também, que estou a dever um post ao Zica visto que ainda não fiz a crítica ao "Night At The Opera" dos Queen. Assim, vos apresento em "one night only" o regresso à insolvência.

"Às vezes é melhor sentirmo-nos cansados do que não fazer nada": pensava eu ao entrar para o metro, para trás ficou mais um semestre, entre muitos e demasiados, quando o peso desses anos pairava sobre mim. Como que pendurados sobre uma corda que esticou até estar perto do alívio final, apercebi-me lentamente do efeito físico, tão cáustico, que a desilusão voltava a trazer: olheiras no rosto, costas curvadas e o estômago amargo de parcas refeições. Descendo pela plataforma, recordo melhores dias, dias de inocência em que sorriamos perante o desconhecido e ousávamos encher o peito de coragem, enquanto uns aos outros, protegíamos as nossas costas.

Lembro-me ainda dos sonhos, quais humildes objectivos, que perseguimos sentados no bar ou em casa, dando vida a letras mortas de tédio. Uma casa na serra, uma família feliz, agilidade no horário e um cheque chorudo chegavam para tudo, mas, na escola da vida pagam-se propinas, o tempo a Deus pertence e tal como nas fábulas há sempre alguém que adormece à sombra perdendo no contra-relógio. Não sinto o negro descanso, mas, o facto é que também não passei a meta, terei apanhado nevoeiro na serra?

Perguntei-me em várias ocasiões se a realidade me tinha calado a ambição, presumi até que já não falava do alto, desci várias vezes ao silêncio da insignificância e voltei outras tantas a construir castelos de areia. Mas, a força das marés acaba sempre por destronar conjecturas imperfeitas e o que é sonhar senão a falência de todas a coisas lógicas e reais. O sonho é um mau guarda-costas, não vê para a frente nem para trás, arrasta-nos para um mundo etéreo para depois ceder perante a gravidade dos factos... O comboio chega ao destino e estou cansado: quando já não conseguir fazer nada, sonharei que sou um homem bom.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Na antecâmara de 1001 portas: Parte VIII

A colónia/Redenção

Se antes o Rei tinha mentido sobre a existência de um espelho e tinha dito a verdade sobre a ilusão espacial inerente ao palácio, este teria certamente ignorado a sua posição sobre o tempo, tempo que tinha perdido todo o significado nos dias e noites que corri cego, surdo e mudo neste túnel.
Por fim deixei de conseguir andar, como se uma força superior tivesse a impedir os meus membros de progredir. O túnel caía sobre mim, os sons dos meus passos eram distorcidos sob a forma de uma massa fónica indiscriminável e a vista via e seguia a luz nos diversos cantos dos olhos, já não estava ao fundo, movia-se agora entre as sombras. Pensei que a loucura tinha finalmente chegado para ser mais um entrave ao cumprimento da minha pena, mas não me sentia louco: ouvia agora sons e vozes distintos, formas humanas apareciam diante de mim e eu sentia a sua orgânica.
Eram ninfas, dançavam e falavam à minha volta na cascata que tinham escolhido para sua colónia. Dezenas de caras igualmente belas decoravam a margem do rio formado pela queda de água que foi a cortina para o corredor da minha perdição. Estava livre dos pecados que nunca cometi e a redenção tinha chegado pelas ninfas que eram todas iguais como se pertencessem a um quadro mecanicamente pintado. Adormeci…


FIM

Na antecâmara de 1001 portas: Parte VII

O Túnel

Ela era a mesma, igual em todos os aspectos. Tornei-me por escolha própria um homem perseguido pelo destino, ignorei todos os deveres de justiça e acumulei a ceifa de vidas inocentes com o propósito de absolver o real culpado. Fugi rapidamente da sala do trono e tomei o único caminho que deveria ter tomado desde que cheguei à antecâmara: a porta que antes me tinha causado aversão era agora o meu castigo.
Abro a porta e sigo por um corredor escuro, completamente negro com excepção de uma ténue luz que resistia no fundo e que era ainda parte incerta. Corri, andei durante horas, dias, semanas, resistindo a necessidades fisiológicas e limitações físicas que em qualquer outro lugar já tinham obrigado a parar a marcha. Senti-me condenado a percorrer eternamente este trajecto escuro como breu, alimentando como válida esperança a luz que continuava a brilhar numa ínfima porção do meu horizonte visual. Parecia um castigo digno, poético até: que bela alegoria, pois, o que é a vida senão um percurso infindável pelo escuro esperando eternamente que cálida luz de todas as virtudes nos acolha no término de tal trajecto e recaía sobre nós, iluminando-nos com sabedoria, amor e aprovação? No entanto, para mim era como um julgamento divino, como se de repente acordasse e me visse despojado de toda a beleza que antes me rodeava, e fosse presente a um tribunal em que o juiz seria meu igual, como o pajem que antes me tinha servido:
- Levante-se o réu. Sabe que é acusado dos crimes mais hediondos que um ser humano pode cometer e, caso neste tribunal se deles façam prova, ficará sujeito às eternas consequências. Até creio que fosse isso que o Rei tivesse tentado fazer antes, ainda que, com uma pena muito mais suave. Mas a minha insolência estragou tudo: podia encontrar-me agora no definitivo descanso com a consciência de que já não podia remediar o que tinha feito. Hoje, neste momento teria respondido ao juiz: - Sim, tenho conhecimento dos meus actos e desejo pagar por eles da maneira que melhor aprouver a este tribunal. O que é equivalente a dizer que continuarei eternamente a andar por este túnel até expiar tais pecados.




Na antecâmara de 1001 portas: Parte VI

A sala do trono: o Rei

Peguei na espada, empunhei-a e procurei despedir-me da minha existência como até hoje a conheci… não fui capaz: tinha sido avassalado pelos argumentos do Rei, mas no fim, o meu corpo não se curvava perante ninguém, nem pela minha consciência. O Rei, furioso com a minha inépcia, pega na espada dele e prepara-se para degolar a rapariga.
– Mais uma vez abusas da minha contemplação, mas até tu saberás que a paciência de um monarca é curta. E puxa o corpo para trás como se procurasse conferir ao golpe a implacabilidade mais do que certa.
Se era o espaço que não valia o mesmo nos dois lados do espelho, não encontro lógica para explicar os eventos que tiveram lugar de seguida: revoltado com tamanha injustiça corri a distância que nos separava e investi sobre o déspota; cego de raiva, nem fiz caso de uma possível retaliação. Enterrei a arma pelo peito do Rei e derrubei-o sem hesitação.
Já se espalhava o sangue pelo chão quando lhe vi a cara; o meu semblante sem vida estava caído entre o manto carmesim e o chão dourado: teria acabado com a minha vida numa realidade diferente? Seria o Rei a minha pessoa ou vice-versa? Procurei dissipar as minhas dúvidas através da ninfa, isto é, se ela fosse diferente da que conheci antes, provavelmente estaríamos no mesmo plano existencial, caso contrário, tinha acabado de me matar a mim mesmo.


Na antecâmara de 1001 portas: Parte V

A sala do trono: O Espelho

Regressei desolado para a antecâmara, perguntava-me qual era o meu desígnio nesta sala, qual era saída. Esperei várias horas antes de tomar uma decisão: se não faço ideia qual é a porta que devo abrir também não fará diferença se escolher no momento; para quê ficar aqui mais tempo? Ainda assim, não parece natural chegar a uma decisão tão importante por mero acaso do destino, deveria esperar até sentir alguma espécie de inclinação, um sinal desse mesmo destino que me impedisse de o abandonar ao aleatório… Por fim abri a porta que me pareceu mais “certa”, mesmo que nada a distinguisse de qualquer outra.
A sala que a porta tentava esconder era verdadeiramente majestosa, quase Real, decorada em tons de dourado e turquesa, na qual sobressaíam um piano e uma poltrona que dava aspecto de ser feita de ouro maciço. O som do piano ecoava mesmo sem que conseguisse ver quem o tocava, a canção era perfeitamente vulgar, arrisco a dizer ambiental. No trono descansava o Rei, ao fundo da sala olhando-me tão fixamente que despertava em mim a obrigação de me prostrar sobre o chão declarando-lhe em vénia a minha eterna lealdade, ainda assim sem saber porque razão, não o fiz.
Decidi encurtar a distância que nos separava afim de conhecer a mui real persona que me havia convocado a este palácio e que tantas provações me tinha feito passar, subitamente, o Rei ordena-me em tom seco: - Pára! Não avances nem mais um passo. Ao que obedeci. – Como decerto não reparaste, existe uma barreira entre nós, se preferires, uma barreira dimensional. Não compreendi mas acenei com a cabeça. – É uma das virtudes desta enorme propriedade, que encobre o real e manipula o imaginário: pertencemos a planos diferentes mas ocupamos o mesmo tempo. Olha para trás e dir-me-ás que vês uma divisão em tudo igual onde me encontro, com excepção da minha presença. E era verdade, uma sala igual rodeava as minhas costas, mas continuei sem proferir palavra.
– Apesar de tudo o que conheces podes reparar na lógica das minhas palavras, no entanto, requisitei a tua pessoa diante de mim por uma razão: terás que responder pela violação e homicídio de uma das minhas concubinas. Nesse momento o sangue gelou-me as veias: referia-se à ninfa. – Não o fiz propositadamente senhor, ignorava que a pudesse magoar nos actos que tomei, cujo único propósito era o de satisfazer a minha sede.
– Confessas que o fizeste por satisfação, mas falas de ignorância. Diz-me: devo desculpar essa falta de conhecimentos, mesmo sabendo que a possuíste diversas vezes numa das minhas torres, já sabendo o que tinhas feito antes? Devem haver limites para a minha justiça?
– Rogo-lhe que considere que ao tempo dessas acções as imaginei apenas como delírios da minha mente. Poupe-me a alma como poupei a dela ao acabar com tais delírios.
– Não creio que possa aquiescer a tal pedido, jovem servo. Tu próprio te apercebeste dos teus erros e fizeste a tua justiça. Porque razão hei de limitar a minha? Desejas que reconheça as tuas motivações como superiores às de um rei? Não o farei… digo-te que deves equilibrar a tua permanência neste mundo com a da vida que retiraste, vais pegar na espada que se encontra no trono e com ela irás por termo à tua vida.
- Não compreendo em que é que o meu suicídio pode contribuir para o equilíbrio das vidas neste mundo, senhor, volto a implorar-lhe para que reconsidere.
– O teu desrespeito pela condição humana surpreende-me, mas satisfaço a tua curiosidade: esqueceste certamente que vivemos em planos diferentes, pois que, no meu a vida que tomaste ainda existe. E nisto a música cessa e a pianista se levanta para provar as palavras do Rei.
– Como vês, o equilíbrio terá que ser reposto, se não acabares com a tua vida, terei eu que por fim à dela.