quinta-feira, 2 de outubro de 2008

O Vampiro

À noite viajam os renegados, os esquecidos e os amargos pelas ruas vazias, completamente despojadas do movimento que lhes dá vida durante o dia. O negro manto é um refúgio artificial, mas ideal para quem não deseja o calor e atenção alheios.

No solitário passeio nocturno vagueia o Vampiro, sequioso de emoções verdadeiras, consequência de lhe ter sido retirada a alma ou do estado de dormência em que esta se encontra. Estes indivíduos são caracterizados pela ausência de laços afectivos duradouros, antes lhes é naturalmente imposto um estilo de vida erróneo sem outra escolha que não a de sobreviver com o afecto de que se conseguem socorrer no momento. No limbo entre a humanidade que lhes resta e a promessa de imunidade emocional estes seres estranhos percorrem um deserto de escuridão.

Sem ninguém de quem depender ou a seu cargo, os drenos humanos desenvolvem armas preciosas que lhes permitem assegurar a sua triste e vil existência. Exemplos característicos serão: a língua viperina, bem afiada e sibilante que lhes permite manipular com precisão as vítimas (através de frases feitas e elogios baratos); a carcaça amistosa, deceptivamente calorosa, que induz uma aura de confiança e permite a aproximação furtiva; na conclusão do elenco destes traços de baixa estatura moral está a mente algoz e hiper-racional, conferindo ao Vampiro a faculdade de cortar relações com qualquer peso morto que possa arrastá-lo para a luz.

Calcinados sentimentalmente, alguns Vampiros conservam recordações de um período de felicidade que antecedeu a sua transformação macabra. Essa vivência não é mais que uma noção intelectual de satisfação natural, que muitas vezes impõe ao indivíduo a necessidade de fugir ao instinto da sua nova raça. Tais sujeitos resistem ao chamamento visceral procurando refúgio nas artes e causas sociais, no entanto, mais tarde se apercebem do insucesso em retirar daí a quantidade de amor necessária para a sua subsistência a longo prazo. Nesta altura esta estirpe aparentemente mais nobre torna-se deveras perigosa, porque cede aos mais básicos instintos animalescos e mergulha num fosso amoral em que renega a selecção e preocupação com as vítimas.

A descida aos infernos que é o vampirismo faz-se por uma escadaria em espiral e uma vez chegado ao destino é cravada uma sede jamais saciável. O eterno vácuo simultaneamente impede a ascendência a um plano superior, como absorve progressivamente a humanidade que foi a nossa identidade em vida. Assim, no soturno abrigo que a lua confere deambulam sem destino os renegados, os esquecidos e os amargos.

1 comentário:

Anónimo disse...

Nussa muitoh boa a história ^^

adorei d+ seu blog

bjus

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